Thursday, August 07, 2008

A conversa

Eu sempre me pergunto por que o arco-íris existe se ele na verdade é uma mera ilusão de ótica; é tudo variação, vicissitude da cor branca, eu diria. O cinema, desta forma, também não deveria existir, posto que ele provoca a ilusão do movimento, é tudo provocado, intencional. Acho que tudo seria mais interessante sem essas enganações. A sinceridade sendo posta em prática em toda a sua pureza me deixaria menos inquieta, neurastênica ( palavrinha só para zoar... ), enfastiada.
Hoje eu corro pelo corredor, sem saber para onde ir: ele tem duas extremidades que já alcancei. Sair delas, no entanto, é quase impossível. Tento enganar, burlar, trapacear, mas continuo sem sair dele, das suas parades herméticas, do seu vazio.
Miguel disse que iria passar para jantar. E eu continuei correndo mesmo sabendo disso. Disse que queria conversar, mas não liguei. Miguel sempre quer conversar. Se ele vivesse num mundo menos interativo seria mais feliz. Outra questão que já me propus, mas não consegui verificar seu empirismo. De qualquer forma, ele queria conversar.
Já sem paciência, resolvi me arrumar. Estava jogada na cama agora, estirada, apática. Mas ele queria conversar. E eu respeitei. A casa estava uma bagunça: tudo jogado, roupas no banheiro de qualquer jeito, frascos fora do lugar, louça empilhada, copos na sala. A desordem era óbvia. A minha paciência era pequena até para ajeitos superficiais. Deixei daquele jeito mesmo. Ele que aceitasse. Não queria vir? Não fez questão? Então que agüente.
Depois de meia hora, ele ligou dizendo que estava a caminho. Saco, pensei. Tomei um banho ao som de uma música lounge. Quase me perdi nas águas caindo em cima de mim. Depois, saí, coloquei um vestido florido e liguei a TV, mas me arrependi logo em seguida e abri um jornal que estava na mesa da sala e fui direto para o encarte de arte. Era a única coisa que prestava. Seu André deixou tudo dessa vez. Nunca fazia direito o que eu pedia. Síndico desgraçado! Casado, com filhos e cheio de amor para dar. Sempre me esgueirei dele, até o dia em que ele pediu para ver a suposta infiltração do meu apartamento. Foi amor à primeira vista, da parte dele. Me mandava frases aleatórias de livros que estava lendo. Geralmente, às segundas, botava Borges. Às quartas, Lorca, às quintas, Nietzche, e por fim, aos domingos, Kant. Até que eu gostava, já que ele tinha bom gosto musical e eu respeitava isso. Mas depois, ficou meio chato, cansativo, ele nunca se declarava e eu tinha Miguel. Cansei dele. Passei a ignorá-lo deliberadamente, então, ele percebeu e raramente me dizia mais que um "bom dia" seco.
Tocou a campainha. Era Miguel. Pontualíssimo, como sempre. Raríssimos eram seus atrasos. Isso me irritava um pouco. Muito certinho, correto. Estressa, de vez em quando.
- Está quente aqui. Por que não liga o ar?
- Porque custa caro e posso abrir a janela.
- Ok.
Ele não gosta de ser contrariado.
- Preciso falar com você.
- Ih, já até sei o que é.
- Acho que não sabe, mas enfim, o que você acha que é?
- Aquela viagem chata que você estava planejando com seus amigos. Ainda quer que eu vá? Não suporto a Carolina.
- Não. De fato, passa longe disso. É algo mais sério.
- Tipo o quê?
- Tipo, nós. Nossa relação.
- Ah, esse assunto de novo. Olha, não fiz comida. Vamos comer fora? Lá em baixo, está bom?
- Pode ser. Preferiria ficar aqui, mas você manda hoje.
Peguei minha bolsa e descemos pelo elevador. O silêncio era sepulcral, devastador. Não queria falar nada, pois suspeitava de alguma coisa. Me protegia de uma forma que não conseguia evitar. Chegamos à pizzaria e escolhemos a mesa mais isolada, quietinha num canto. Prontamente, pedi uma cerveja, e ele um suco de uva. Que chato ele era. Sempre foi assim. Desde que nos conhecemos eu queria a aventura e ele a calmaria.
Depois de cinco cervejas, estava mais feliz, saltitante, brincando com os garçons, sendo simpáticas com os conhecidos que não via há séculos e que sempre insistem em aparecer. Comecei a cantar e não parei. Miguel queria dizer algo, mas não prestei atenção.
- Mí, nossa relação....
- "Hold me tightLet me go on loving you Tonight, tonight Making love to only you"
- Mí...
- "Don't know what it means to hold you tight Being here alone tonight with you"
- Tá tudo acabado...
- " It feels alright now Hold me tight Tell me I'm the only one
- me ouvindo? prestando atenção?
- "And then I might Never be the lonely one"
E eu não parava de cantar. E fiquei assim na hora de pedir a conta e quando desci ao elevador, sem Miguel. Não estava com vontade de acreditar, por isso neguei até o fim entoando uma música dos Beatles.
Fui dormir. No dia seguinte, acordei mais leve, desprendida, solta, de uma maneira que não acordava há anos. E pensei: "foi melhor assim. Tudo que começa tem um fim, seja a morte, o término. Foi melhor assim".