Sem título, tá?
Meus planos para este presente tão próximo que tenho espasmos de medo e ansiedade quando penso nele apontam uma vontade que agora se transformou em desespero- quase que para uma fuga- para a sua realização. Meu objetivo já era sair do Rio. Depois de sexta-feira, ela vem tomando vida própria, e grito em alto e bom som: EU TENHO QUE SAIR DAQUI! O que me era insuportável se tornou insustentável. Eu não posso mais conviver com meus pais e com esse ambiente horrendo e patético que chama Santa Rosa - a parte ruim é claro, que por sinal é onde eu moro.
Com meus pais, porque eles não reconhecem o que pra mim é essencial: sentir segurança. A nossa casa tem que ser o nosso refúgio da rua intranqüila, nosso porto-seguro. Você pode passar pavor fora dela, mas ela tem que reverberar "não há nenhum lugar como nossa casa" aos berros. Infelizmente, não existe isso aqui. Meus pais nunca perceberam o perigo, as atrocidades que as pessoas podem fazer, as más intenções. Tinham uma postura que exteriormente parecia ingenuidade, mas que no interior, sabe-se muito bem, não passava de uma venda nos olhos para não arcar com a responsabilidade que as medidas de segurança exigem. Eu tive que pagar caro, mesmo falando diariamente da nossa vulnerabilidade, para que as pessoas percebessem a situação, deixassem a postura integralmente "naïve" de lado e fazer algo. A primeira medida será colocar o gradil. Ok. Vai enfeiar a casa, mas é preciso. Depois, vem a parte mais difícil, mais complexa: o interfone. É a essencial e a que as pessoas menos lutam. Se me ouvissem, me dessem bola, talvez algumas coisas não tivessem acontecido. Se a mediocridade não imperasse, talvez as coisas pudessem ser diferentes. Esse "talvez" é massacrante, mas as suposições me perseguem.
Depois disso tudo, eu sei que eles não vão sair daqui. E é por isso que eu percebi que toda a minha vontade de desaparecer desse lugar deve ser fomentada, pois eles não vão sair daqui. E aquele célebre ditado "os incomodados que se retirem" valem para corroborar para o meu argumento de fuga deste lugar. Eu não agüento mais ter que entrar na vila, ver que uma favela está crescendo e aturar meus pais se recusando a sair daqui - por opção, portanto, mediocridade, claro. Não agüento também morar perto da Beltrão. É um dos lugares mais periogosos de Niterói, tem polícia sempre andando pela Mario Vianna, alguns ônibus simplesmente são proibidos de entrar, e a tendência é piorar mais, mais e mais.
A intenção é fazer a monografia nesse primeiro semestre e entrar num cursinho no segundo. Estudar feito uma louca e sair daqui. De preferência morando em outro lugar, investindo nesse, pq tenho noção que o Rio já deu no que tinha que dar, e meus pais não percebem isso.
E morar sozinha também é ter indepedência. Vou me privar de vários luxos, mas tudo em nome de uma vida melhor, num lugar superior, seguro e no qual eu me sinta bem. E mais importante: LONGE DAQUI.
É assim que eu me sinto, vulnerável, insegura. Sei que isso vai me carregar a tudo quanto é lugar que eu for, mas a chance de poder recomeçar me é impagável. Eu mereço uma oportunidade, vou dar isso para a minha vida.


